Alfabetização visual e artística: a escola precisa ir além do ensino letrado

Especialistas defendem que a escola deve garantir a formação integral do indivíduo investindo na alfabetização visual do estudante

Quem nunca ouviu um antigo ditado que diz: “uma imagem vale mais do que mil palavras”? A frase define bem a importância da imagem na história da humanidade, sobretudo para a sociedade contemporânea. Uma das primeiras formas de comunicação do homem se deu, justamente, por meio de pinturas e desenhos nas paredes das cavernas. Milhares de anos depois, as imagens estão presentes o tempo todo no nosso dia a dia. 

O mundo é cada vez mais visual e a escola ainda não encontrou a forma adequada de utilizar a imagem a favor do aprendizado. Se pensarmos que a arte, atualmente, não está restrita a lugares específicos, como museus e centros culturais, torna-se importante refletir sobre o papel da escola na reeducação do olhar para que os educadores de hoje consigam, além de transmitir conteúdo letrado, promover a alfabetização visual, ajudando a formar indivíduos que saibam analisar, de maneira crítica, as imagens do cotidiano.

Além do mundo letrado

Avançando no tema, o professor e historiador Leandro Karnal, defende que é preciso submeter os estudantes a processos de alfabetização mais amplos, que vão além do mundo letrado. “O mais comum dos processos é o da alfabetização de texto. Trata-se do domínio de sinais, fonemas e regras que são trabalhados com os alunos, em geral, no início do Ensino Fundamental. Mas, feito isso, a criança continua analfabeta em leitura visual, expressão corporal e música, por exemplo”, afirma Karnal. Para ele, trabalhar com arte e música em sala de aula, é essencial para alfabetizar o estudante de forma completa. “A música é uma das raras atividades humanas que conecta os dois lados do cérebro, que junta a precisão matemática, a sensibilidade artística e a coordenação motora. Educar um aluno na música é fundamental”, destaca Karnal.

“Se eu soubesse explicar, eu não teria pintado”

O neurocientista Miguel Nicolelis também destaca a importância do indivíduo dominar outras formas de expressão além da fala. Para ele, pintar, por exemplo, é uma expressão natural do ser humano. É uma forma de comunicação que carrega mensagens muitas vezes mais complexas que um discurso. “Quando a pessoa está pintando, ela está transferindo para uma tela, diretamente da sua imaginação, coisas que não são necessariamente fáceis de serem escritas ou faladas”, explica. Sobre isso, Nicolelis relembra uma frase do artista espanhol Pablo Picasso: quando o questionavam sobre o significado de determinada obra, Picasso respondia “Se eu soubesse explicar, eu não teria pintado”.

Para ser completo, o ser humano deve ter uma formação integral, e, pensando nisso, a escola deve ir além do ensino de disciplinas que ensinam a fazer cálculos ou decorar conteúdos. Entre os objetivos da escola deve estar o de proporcionar a alfabetização visual a partir de um variado repertório de imagens e recursos, permitindo que o estudante, em seu cotidiano, tenha um olhar mais crítico e atento diante da imensa variedade de imagens que são apresentadas dentro e fora da sala de aula. “Educar um estudante apenas na leitura de texto é deixá-lo analfabeto em vários campos. O mundo contemporâneo é um mundo visual. Logo, arte tem uma importância maior agora, no século XXI, do que talvez tivesse há 50 anos. Isso é fundamental para os nossos alunos”, completa Karnal.

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